
WikiLeaks x Brasil

Adios

Lula deixa um legado positivo em realizações, que não se pode negar:
A manutenção da estabilidade econômica que herdou dos antecessores Itamar Franco (1992-1995) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), na qual se baseou o grande crescimento do PIB e a formidável geração de empregos ocorridos em sua gestão, ambos impulsionados por uma conjuntura internacional extraordinariamente favorável. E, entre outros aspectos louváveis, a marcante distribuição de renda, também estribada na “rede de proteção social” do antecessor FHC, que seu governo ampliou e aprofundou.
Em compensação, em matéria de herança maldita, o presidente que hoje deixa o Planalto…
* Viu seu governo ser tisnado por escândalos nos Correios, na compra de ambulâncias, na montagem de dossiês fajutos para prejudicar adversários, na transformação da Casa Civil em balcão de negócios.
* Desmoralizou o quanto pôde o Congresso Nacional, por meio de seu então braço direito, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, que edificou umesquema de compra de apoio parlamentar, o mensalão, qualificado pelo procurador-geral da República como “formação de quadrilha”.
* Silenciou espantosamente diante da explosão do mensalão, para se pronunciar tardiamente dizendo-se “traído”, sem jamais apontar quem o traiu e por quê.
* Como parte do mesmo processo, fez composições com qualquer grupo político disposto a trocar apoio parlamentar por benesses governamentais, “não importando o quanto de incoerência essas novas alianças pudessem significar diante do que propunha, no passado, a aguerrida ação oposicionista de Lula e de seu partido na defesa intransigente dos mais elevados valores éticos na política”, como brilhantemente recordou o Estadão em editorial de 9 de setembro do ano passado. No saco de gatos governista o antes purista PT passou a conviver com o que há de pior na política brasileira, gente como José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Paulo Maluf e Fernando Collor.
* Envergonhou os brasileiros de bem quando comparou com bandidos comuns trancafiados em prisões brasileiras os dissidentes da ditadura cubana, e confraternizou com o ditador Raúl Castro no exato momento em que um deles morria em consequência de uma greve de fome.
* Envergonhou os brasileiros de bem estreitando laços com regimes ditatoriais, como os de Cuba ou do tenebroso Irã, ou com caudilhos autoritários como o venezuelano Hugo Chávez, e concordando em que o governo se abstivesse sistematicamente na ONU de condenar as violações de direitos humanos nesses países e em outros como a China, o Sudão e a Síria, aliando-se, na organização internacional, ao que há de pior em matéria de regimes autoritários.
* Desmoralizou as agências reguladoras, que deveriam ser órgãos técnicos e apartidários, para normatizar e fiscalizar áreas fundamentais da economia e da vida do país como o petróleo, as telecomunicações, a saúde pública ou a aviação, loteando-as entre políticos, cortando sua autonomia e reduzindo seus recursos no Orçamento.
* Desmoralizou o Tribunal Superior Eleitoral, zombando em público das sucessivas multas e advertências que recebeu por violar a lei ao fazer campanha para sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff, em horário de trabalho e utilizando espaços e outros recursos públicos.
* Desmoralizou o Tribunal de Contas da União, ao apontá-lo seguidamente como entrave à execução de obras públicas nas quais a corte detectou problemas, e mandando seguir obras cuja paralisação havia sido determinada pelo TCU.
* Desmoralizou uma instituição que por décadas figurava entre as mais confiáveis entre os brasileiros, os Correios, aparelhando-0s politicamente e deixando que o que antes era um centro de excelência em ninho de corrupção.
* Desestimulou os brasileiros que se esforçam por estudar e avançar em seu progresso educacional, ao passar invariavelmente a impressão de orgulhar-se de não possuir um diploma universitário e de, mesmo podendo, não ter estudado além do ensino elementar.
* Desmoralizou com frequência a majestade do próprio cargo, transformando a figura do presidente em palanqueiro vulgar, encantado pela própria voz, proferindo uma catarata diária de discursos e frequentes e constrangedores disparates, que dividiu o país entre “eles” e “nós”, falou em “extirpar” um partido político legítimo, o DEM, e zombou do candidato da oposição à Presidência, José Serra (PSDB), quando este se viu envolvido em incidente provocado por baderneiros no Rio de Janeiro.
* Fez o possível para desmoralizar a História, ao martelar em seus discursos e, indireta e insidiosamente, na caríssima propaganda de seu governo, que o Brasil começou com sua chegada ao Planalto, há oito anos, quando “os brasileiros se reencontraram com o Brasil e consigo mesmos” — desconsiderando e desrespeitando o trabalho de antecessores, principalmente FHC, e agindo como se o que a propaganda oficial chama de “reencontros” não ocorresse em surtos desde, pelo menos, a Inconfidência Mineira (1789). E depois passando pela Independência (1822), a República (1889) e, mais recentemente, pelos anos JK (1955-1961), as esperanças suscitadas com a eleição de Jânio Quadros (1961), o “Brasil Grande” da ditadura militar, o extraordinário movimento das Diretas-Já (1983-1984), o surto de civismo que significou a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985, e a comoção gigantesca que acompanhou sua morte, em abril do mesmo ano, o delírio otimista do Plano Cruzado (1986), o apoio ao Plano Real (1994) e a eleição em primeiro turno de FHC (ainda em 1994).
Nesse sentido, não importam seus índices de popularidade: Lula deixa uma herança maldita.
E já vai tarde.
Coluna do Ricardo Setti na Veja.
Brasil Monarquia (ou seria República?) Parte I
A emancipação política do Brasil não trouxe mudanças significativas à vida cotidiana da aristocracia brasileira. Os homens das corte acordavam por volta das 7 horas da manhã. No segundo andar do palácio de São Cristóvão, o rei era vestido por seus camareiros: ceroula, camisa de seda, colete ricamente bordado a ouro e manto forrado de pano prateado com jóias incrustadas. Enquanto isso, no andar térreo do palácio os criados preparavam o desjejum do rei, composto por queijos, iguarias importadas de Portugal e um sem-número de frutas: abacaxis, refrescos de caju e maracujá, mamões, bananas, doces de goiaba e coco...
Ao mesmo tempo, a rainha e suas filhas também eram vestidas pelas camareiras e tomavam seu desjejum. Por volta das nove horas, ouviam a missa junto com o rei; permaneciam no palácio até meio-dia para almoçar em família. À tarde, a rainha e as filhas realizavam passeios pelas casas de campo em Mata Porcos e no Catete, ou visitavam as nobres da corte para conversar sobre as novidades: casamentos, novas modas trazidas da Europa... As aristocratas da corta – assim como seus maridos – tinham muito tempo disponível para o ócio e o lazer.
O rei, após assistir a missa de manhã, dirigia-se para a sala do trono, onde realizava audiências com o os ministros e altos funcionários, que moravam no palácio de São Cristóvão. Enquanto isso, outros funcionários e grandes comerciantes que moravam nas imediações do palácio iniciavam suas atividades. Desembargadores vestindo becas de seda negra e tendo ao pescoço o colar carmesim de Cristo, chegavam aos tribunais, ao passo que coletores de impostos, escriturários, artistas, cientistas e uma centena de outros funcionários também iniciavam suas atividades. Os grandes comerciantes por sua vez, inspecionavam suas lojas de importados.
Após o almoço, o rei também realizava passeios, indo desde a ilha do Governador até Botafogo. Em seguida, voltava para São Cristóvão para as recepções da noite – que eram numerosas -, as quais a rainha e as mulheres em geral não tinham acesso. Essas festas, com muita comida e bebida, costumavam se prolongar até tarde da noite.
Contudo, não faltavam oportunidades para as mulheres aristocratas participarem das reuniões sociais, que eram numerosas na corte. Em suas cadeirinhas, carregadas por escravos, elas compareciam à missa, momento de ostentação e re-afirmação social; participavam também das diversas festas religiosas que se espalhavam pelo ano: Natal, Páscoa, Pentecostes, Dias de Santos...
Estas ultimas quase sempre terminavam com luxuosos bailes nos palácios aristocráticos, onde se dançava e bebia durante toda noite.