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Força Interior (Parte II)

O despertar da força interna pode acontecer pela exigência do destino - ou pela vontade.

As situações da vida são capazes de estimular a liberação de uma força que desconheciamos?

Cada pessoa é um Adam que pode virar He-Man pela invocação de seu poder, mas isso deve ser feito com convicção. O personagem de desenho animado que animou as crianças das décadas de 80 e 90 não levantava a espada e anunciava "Pelos poderes de Grayskull...Eu tenho a força!", a não ser que fosse necessário. Era o perigo que liberava a energia que transformava o fracote no fortão, o medroso no herói.
Na sociedade moderna podemos dizer que não corremos tantos perigos físicos, como acontecia em Eternia. Em compensação, corremos perigos emocionais ainda maiores, pois todos os dias somos assombrados pela possibilidade de fracasso, pelas perdas afetivas, pelos problemas profissionais ou financeiros, pelas dúvidas existênciais. E todos os dias temos a chance e a necessidade de anunciar nossa força, ainda que, as vezes, algumas pessoas não o façam.
Neste ano em que me preparo para entrar na faculdade de Psicologia, li ao livro Dr. Jivago, romance de Boris Pasternak, que conta a história de pessoas comuns atingidas pela revolução russa, provavelmente um dos períodos mais turbulentos que a sociedade já produziu. Lembro-me de ter sido dificil acreditar que tudo aquilo era verdade. Aquele sofrimento em cascata, uma desgraça atrás da outra. O jovem médico Yuri preso, afastado da família, sequestrado pelos bolcheviques para lhe prestar serviço e, ainda por cima, a dúvida entre o amor por sua mulher e a paixão por Lara.
Toda essa trama épica deixou em mim uma tatuagem emocional. Aliás, aprendi que podemos aprender muito sobre a alma humana através da literatura, principalmente dos clássicos russos. Eles retratam como ninguem a guerra, a injustiça, o inverno, a fome e a dor. E deixam claro que nada pode enfrentar a força do ser humano. O destino não nos pergunta se estamos dispotos, simplesmente apronta das suas.
Sim, a necessidade obriga. "O sapo pula por precisão, não pula por boniteza", diz o escritor Guimarães Rosa. A força interior existe, mas é virtual. Não pode ser percebida a não ser, quando ela é solicitada de verdade. E isso pode acontecer por dois motivos: por exigência do destino ou por ingerência da vontade. Ou por ambos.
"Ferramenta tens, não procures em vão", disse Fernando Pessoa em um de seus belos poemas que nos colocam em contato com nós mesmos. "Tenha o coração sensível e use a força da mente", termina seu verso. Sim, temos a ferramente dentro de nós, só precisamos usá-la.

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Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

(Fernando Pessoa, 2-10-1933)

Força Interior (Parte I)

Com frequência fala-se que temos que usar nossa força interior. De que se trata essa força, especialmente quando alguém tem que enfrentar uma dificuldade?

"Há pessoas que, diante das adversidades, crescem e aproveitam para se transformar em pessoas melhores. E há outras que simplesmente se deixam destruir. O que determina a diferença entre esses dois tipos sempre me intrigou."

Como se mobiliza essa força interna?

Quando penso em forças lembro-me com saudade dos meus professores de Física. Eles lecionavam Mecânica, a parte da Física que se encarrega de estudar a dinâmica dos corpos. "Para produzir ou alterar o movimento de um corpo é necessária a aplicação de um força, portanto, força é um agente capaz de modificar o estado de um objeto físico".
E eu ficava pensando qual seria o equivalente humano para essa força modificadora. Se há tantos tipos de energia, só seu, que lhe dá força para trabalhar, produzir arte, superar adversidades, construir história. Não é possível que sejamos apenas depósitos de combustível orgânico obtido pelo alimento, capaz de ser oxidado para poder levantar uma pedra. Eu não podia aceitar que fosse apenas um entreposto energético, como um rio em movimento ou uma mina de carvão.
A Física, com todo seu esplendor lógico, é insuficiente para explicar o espetacular conjunto de processos que permite a um homem superar qualquer força da natureza, e que não pode ser simplesmente represado ou enssacado como um combustível fóssil. Demorei a entender esses mistérios e não foi nos compendios da Física, e sim nos saberes da literatura, psicologia e na própria vida vivida.
Podemos pensar sobre Freud; sua importância é imensa para o entendimento da alma humana, e isso se deve ao seu trabalho pessoal e também ao trabalho de seus seguidores, que foram muitos durante a sua vida, e hoje são milhares, ampliando suas ideias, ajudando a raça humana a se compreender.
Entre seus discípulos diretos esteve Erik Erikson, um jovem artista plástico alemão que se encantou com a psicanálise, mudou de área, trabalhou ao lado de Ana, filha de Freud, e acabou migrando para os EUA, onde se fixou na Universidade de Harvard como professor e pesquisador. Seu interesse era o ego e a influência nas relações interpessoais.
A Erikson devemos a expressão "força do ego", que nos ajuda a entender coisas do comportamento humano. Segundo suas observações, nós estamos programados para desenvolver algumas virtudes, que seriam estados de orientação para o bem e para a evolução. São elas: a esperança, a vontade, o propósito, a competência, a fidelidade, o amor, o cuidado e a sabedoria. Ao conjunto dessas virtudes podemos dar nome a força interior, pois quem é dotado dessas qualidades terá todas as condições para reagir às adversidades e atingir o objetivos estabelecidos.
Entretanto, Erikson explica que o desenvolvimento da integridade psicológica depende de um esquema de fases psicosociais, cada uma com suas propriedades. Em cada um dos períodos de formação de uma criança, do jovem e do adulto, o homem está desenvolvendo virtudes que lhe permitirão enfrentar a vida. Como essas fases são psicológicas, mas também sociais, o meio ambiente e as relações com a família e com os amigos serão determinantes na formação de um conjunto de virtudes.
Para desenvolver essas virtudes, é necessário encontrar propósitos para a vida, desenvolver conhecimentos, treinar a disciplina e conseguir estabelecer relação pessoais construtivas. Trata-se de um investimento, de um trabalho sem fim. São mecanismos de liberação de força vital que precisam ser criados, pois nascemos com a força, mas precisamos aprender a lidar com ela.

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Deixo registrado aqui os belos versos da música Primavera entre o dentes, do grupo Secos e Molhados:

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera