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Sobre Morangos Mofados

Remexa na memória, na infância, nos sonhos, nos tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente, é lá que você está. Tem que por isso pra fora, enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira esse vomito, amolda-o, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E não fique esperando que alguém faça isso por você. Na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente. Só não fique assim, engasgado.

Let me take you down
cause I'm going to
strawberry fields...

Uma homenagem a Caio F. Abreu e Cornelia Heidiger.

Porque o fundo está também na superfície..

Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Então, de repente, sem pretender, respirei fundo e pensei que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza. E ela era absoluta.